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terça-feira, 26 de julho de 2011

André Martini (1980-2011)

O antropólogo André Martini, 31 anos, era a pessoa de referência do Programa Rio Negro do ISA para as associações indígenas do Alto Rio Uaupés, na fronteira Brasil-Colômbia. Morreu em S. Gabriel da Cachoeira (AM), Alto Rio Negro, na última terça-feira, 18 de julho, acometido por um mal súbito, provavelmente um ataque cardíaco ou um acidente vascular cerebral.



Graduado em Ciências Sociais (2004) e Mestre em Antropologia (2008) pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), era colaborador associado do ISA desde 2006, quando fez uma pesquisa para sua tese de mestrado intitulada Filhos do Homem: a introdução da piscicultura entre populações indígenas no povoado de Iauaretê, Rio Uaupés e assessor da Coidi (Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê), além de associações indígenas de Iauaretê e da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro).

Em Iauaretê, André vinha participando de várias iniciativas, como a criação de um Centro de Pesquisas Indígenas, a repatriação de ornamentos sagrados que estavam no Museu do Índio de Manaus, registros de narrativas e histórias e o apoio permanente às associações indígenas, ao Colégio S. Miguel e à Estação de Piscicultura.

Em S. Gabriel ele estava acompanhando o processo de consulta sobre educação “superior” indígena e apoiando a Foirn no fortalecimento do Pontão de Cultura. Estava ainda bastante animado com a decolagem, finalmente, do projeto de mapeamento do Sistema de Lugares Sagrados na fronteira Brasil-Colômbia, que conta com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil e contrapartes colombianas. No plano mais geral do ISA, André estava escrevendo artigos e considerando a possibilidade de rever e publicar sua tese de mestrado sobre Iauaretê.

A notícia de sua morte precoce abalou profundamente seus pais Miguel e Sonia e seu irmão Daniel, seus amigos e companheiros de trabalho. Sua ausência, pela competência e doçura otimista que o caracterizava, abre uma cratera profissional e afetiva dentro do pátio da aldeia do ISA. Para o presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, Abrahão França, “o movimento indígena do Rio Negro perde uma pessoa que não media esforço, pelo contrário se sacrificava. Graças a ele a Foirn tem avançado na questão do pontão de cultura, projeto pelo qual ele tinha um carinho muito especial”.

Maximiliano Meneses, diretor da Foirn, recebeu a notícia da morte de André em Taracuá, no Médio Uaupés, pelo sistema de radiofonia e enviou pela internet uma mensagem em nome dos colegas do curso de Licenciatura. “Pêsames aos familiares de um grande amigo dos indígenas do Rio Negro e em especial do Rio Uaupés, que muito tem contribuído para que os projetos da região dessem certo com seu acompanhamento, onde também conseguiu fazer grande amizade conosco”.

Mensagens de perplexidade e carinho continuam chegando ao ISA, entre elas a de Alfredo Manevy, ex-secretário executivo do Ministério da Cultura, cargo que deixou em dezembro de 2010: “Recebi com profunda dor a morte do André. Eu o conheci ano passado, quando fui com ele para Iarauetê, numa viagem inesquecível... Mais que um parceiro do MinC, descobri um amigo extraordinário. O que me encantou nele era a entrega genuína e sua devoção que era quase uma identificação plena com a cultura do Alto Rio Negro. Além disso, sua lealdade a esses povos era nada acadêmica. Vinha das entranhas, era quase seu modo de vida. Escrevo para registrar esses sentimentos e valorizar o trabalho que o André fazia no ISA. Era além de tudo um profissional obsessivo e talentoso. Ele virou noites para realizar a parte burocrática infernal demandada pelo ministério. Resta-me pedir que os projetos sejam continuados e concluídos”.

Nos próximos meses, a equipe do ISA Rio Negro vai conversar com as lideranças indígenas de Iauaretê e de S. Gabriel, para definir como será possível dar continuidade aos trabalhos que André Martini estava realizando.

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